Prezados leitores, atualmente a Medicina Legal é bastante procurada pelos profissionais biomédicos, porém, muitos ainda não fazem ideia do que se trata essa nobre profissão. Então, segue uma pequena contribuição do nosso querido professor e amigo Alexandre Soares (Gardenal) sobre Medicina Legal, espero que seja útil a todos.
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Professor Dr Alexandre Soares (Prof Gardenal) - Instituto Medico Legal - DF |
Conceito de Medicina Legal:
A
Medicina legal apresenta características peculiares. Ela se serve dos diversos
ramos da ciência (biologia, química, física) no sentido de auxiliar a
Justiça. O seu conceito mais aceito é: “Medicina
legal é a ciência da aplicação dos conhecimentos médico-biológicos aos
interesses do Direito e à fiscalização do exercício médico-profissional”.
2,
Importância da Medicina Legal
A Medicina Legal é chamada para
resolver questões que afetam o indivíduo desde a sua existência no ventre
materno até determinado tempo após sua morte. Fala da sua capacidade, da sua
responsabilidade, dos seus crimes, dos defeitos do seu depoimento, de sua
identificação, do suicídio, do homicídio e da morte acidental. Não é exagero
dizer que a honra, a liberdade e até a vida dos cidadãos podem depender de suas
decisões.
O Juiz, o Promotor público, os
advogados necessitam de conhecimentos médicos legais para que possam exercer de
maneira satisfatória suas funções.
Muitas vezes um processo judicial é
resolvido por um detalhe médico legal, e uma pessoa injustamente acusada de um
determinado delito pode ser inocentada através de um exame médico legal.
3. Divisões da Medicina Legal
A Medicina Legal l se divide em:
a) Antropologia
Médico-Legal: Estuda a identidade e a identificação Médico-Legal e judiciária
b) Traumatologia
Médico-Legal: Trata das lesões corporais
sob o ponto de vista jurídico e das energias causadoras do dano
c) Sexologia
Médico-Legal: Estuda a sexualidade humana sob o ponto de vista normal, anormal
e criminoso
d) Tanatologia
Médico-Legal: Cuida da morte e do morto. Analisa os mais diferentes conceitos
de morte, os direitos sobre o cadáver, o diagnóstico da morte, a data da
morte, da necrópsia, da exumação,
analisando também a causa jurídica da morte.
e) Toxicologia
Médico-Legal: Estuda os venenos, as drogas e seus procedimentos periciais.
f) Asfixiologia
Médico-Legal: Detalha os aspectos das Asfixias de origem violenta (esganaduras,
enforcamento, estrangulamento, afogamento, soterramento, sufocação direta e
indireta.
g) Psicologia
Médico-Legal: Analisa o psiquismo
normal, as causas que podem deformara capacidade de entendimento da testemunha,
da confissão, do delinqüente e da própria vítima
h) Psiquiatria
Médico-Legal: Estuda as diversas doenças mentais, os problemas da capacidade
civil e da responsabilidade penal sob o ponto de vista médico-forense.
i)
Criminologia:
Preocupa-se com os mais diversos aspectos da criminogênese, da criminodinâmica,
do criminoso e da vítima.
j)
Infortunística:
Estuda os acidentes de trabalho e as doenças do trabalho.
4- Tipos de exames
médico-legais
4.1 Lesões Corporais: Visa esclarecer se houve a infração penal de
lesão corporal. O médico legista irá descrever no laudo a quantidade, o tipo e
as características das lesões encontradas no periciando, e em seguida
responder no laudo se as lesões foram
leves ou graves, se resultaram em perigo de vida, incapacidade para o trabalho
por mais de 30 dias, se causaram debilidade permanente ou perda de membro, sentido ou função, se provocaram
aceleração de parto ou aborto, se causaram deformidade permanente, se causaram
enfermidade incurável
4.2 Exame para verificação de
gravidez: É realizado para fornecimento de prova material nos crimes de
sedução e estupro com gravidez. Outra finalidade seria a expedição de alvará
judiciário autorizando a prática de aborto legal em caso de estupro. O médico
necessita responder se a pericianda
estava grávida e há quanto tempo.
4.3 Exame para verificação de
aborto: é feito nos casos que se necessite comprovar a materialidade do abortamento nas suspeitas
de abortamento criminoso, abortamento conseqüente a lesão corporal, ou doença
do trabalho que provoque aborto.
4.4 Exame para verificação de
parto e puerpério: Tem por finalidade constatar a recenticidade do parto e
puerpério.
4.5 Exame Toxicológico: é feito para verificar se houve uso de droga
que cause dependência física ou psíquica.
O exame consta de duas partes: um exame clínico (sinais e sintomas
sugestivos do uso da substância que provoque dependência) e um exame
laboratorial em material colhido do periciando,que em geral é a urina. O exame
laboratorial detectará quantitativamente (quantidade de droga consumida) e
qualitativamente (tipo de droga consumida) através de técnicas como o
imunoensaio.
4.6 Exame de embriaguez: É feito para verificar se o periciando fez
uso de bebida alcoólica e se o mesmo se encontra em estado de embriaguez. O
exame é feito através de sinais e sintomas clínicos apresentados pelo
periciando. A dosagem de álcool no sangue pode ser feita através do exame de
sangue(a que o periciando não está obrigado d se submeter, pois implica em ser
introduzida uma agulha em sua veia).
4.7 Exame para verificação de
idade: Visa determinar a idade
aproximada do periciando. Os quesitos a serem respondidos no laudo são: se o
periciando é menor de dezoito anos, ou maior de catorze
4.8 Exame psiquiátrico: Fornecem elementos para caracterizar a
insanidade mental do acusado e ajudar na determinação da sua responsabilidade
penal e aplicação da pena.
4.9 Exame Cadavérico: È a necrópsia, que é o exame
interno e externo do cadáver, com a finalidade de deteminar a causa mortis , a causa jurídica da morte,
o tempo decorrido do óbito e também a identificação do corpo. È feita em todos os casos de crime ou
suspeita de crime, sendo indicada pela autoridade policial ou judiciária.
NECRÓPSIA
Exame necroscópico, necroscopia,
autópsia, autopsia, necropsia, necropsia, tanatoscopia, autósia, são todos termos
sinônimos utilizados para definir o exame externo e interno do cadáver
realizado com o objetivo de definir a causa da morte do indivíduo, tanto do
ponto de vista médico quanto do ponto de vista jurídico.
A necropsia é um trabalho em
equipe, e uma tarefa de paciência. A
necrópsia constitui a maior fonte de ensinamento na medicina legal e também na
Patologia.
Trabalho árduo, nem sempre bem interpretado e aceito pela comunidade e
inclusive pela comunidade hospitalar, a necrópsia deve ser realizada com a
consciência de sua importância no aprimoramento da Medicina, na Medicina Legal
e como instrumento de controle do seu próprio exercício.
O médico legista, o patologista e o técnico em necropsia não podem deixar de considerar o trauma que
representa a necrópsia para os familiares do morto, e a eles toda atenção e
respeito devem ser dados, incluindo a preocupação de não mutilar o cadáver.
A necrópsia não serve apenas para identificar a causa do óbito, ou
apenas para finalidade médico-legal como muitos pensam. Ela tem diversas outras funções:
- Controle de qualidade do diagnóstico e do tratamento, através do conhecimento, por parte da equipe que atendeu o paciente, dos achados da necrópsia, visando identificar possíveis erros e suas causas, buscando sua correção, para que não se repitam em outro paciente.
- Material para ensino dos residentes, alunos e professores. A correlação clínico-patológica realizada durante todas as etapas da necrópsia é um excelente exercício, trazendo um aperfeiçoamento crescente em todas as áreas da Patologia. Fornece também "peças" que são fixadas em formol e utilizadas no ensino.
- Fonte de informação para a Secretaria de Saúde, permitindo a feitura de estatísticas precisas sobre as doenças mais freqüentes, o que influi na política de saúde do Estado e do Município.
- Material para pesquisa.
- Reconhecimento de novas doenças e de novos padrões de lesão.
- Reconhecimento do efeito do tratamento na evolução da doença.
- Esclarecimento de casos sem diagnóstico clínico firmado ou naqueles em que a morte do paciente foi inesperada.
- Casos suspeitos de doença ambiental ou ocupacional.
Desta forma, existem dois tipos
básicos de necropsia: a necropsia médico legal e a necropsia clínica.
A NECRÓPSIA MÉDICO-LEGAL
A necropsia médico legal é aquela realizada
em todo caso de morte violenta ou suspeita.
Entende-se por morte violenta toda morte resultante de uma ação externa
e lesiva, sendo ela acidental ou não. Já a morte suspeita é aquela que ocorre
sem qualquer justificativa, de forma duvidosa, para a qual não se tem evidência
concreta de sua causa.Assim, a morte pode ser considerada suspeita sempre que
houver a possibilidade de não ter sido natural a sua causa. Um exemplo de morte
suspeita é o indivíduo ser encontrado morto em um quarto de hotel. Como não se
tem certeza da causa de sua morte, ou não se pode afirmar se houve ou não violência que
causasse a sua morte sem o exame necroscópico , a necropsia é necessária para o
esclarecimento deste óbito. Outro exemplo: o indivíduo encontrado morto no
banheiro de sua casa, trancado por dentro, tanto pode ter sido vítima de uma
doença de evolução aguda quanto pode ter cometido suicídio. Outro caso de morte
suspeita é o cadáver encontrado em avançado estado de putrefação.
O tipo de morte chamado morte súbita
é aquela que ocorre sem uma patologia prévia que a justifique. Ela inclui tanto
a morte fulminante, em que a pessoa aparentemente normal sofre uma crise
repentina, cai e morre, quanto nos casos em que uma doença se instala em um
indivíduo sadio e evolui muito rápido, levando a sua morte em torno de um dia.
Geralmente, toda morte súbita também é considerada morte suspeita.
A
necropsia médico legal em todos estes casos (morte violenta e morte suspeita) é
considerada de caráter OBRIGATÒRIO, não dependendo de autorização da família
para ser realizada. As suspeitas de erro médico
que levam à óbito também são investigadas por meio de necropsias
médico-legais A necropsia médico legal se divide
em exame externo e exame interno.
EXAME EXTERNO: São inspecionadas todas as regiões do
cadáver, de forma a identificar características externas relacionadas à causa
da morte. Desta forma, são descritos e relacionados pelo medico legista, com a
ajuda do técnico em necropsia, os
orifícios de projéteis de armas de fogo, ou perfurações causadas por
instrumentos perfuro-cortantes, assim como escoriações, fraturas, equimoses,
etc.
EXAME INTERNO: Com o cadáver em
decúbito dorsal, um cepo de madeira é colocado sob a nuca, e inicia-se uma
incisão bimastóidea vertical, tendo o cuidado de desvia-lo se porventura houver
alguma lesão traumática em seu caminho. Rebatem-se para frente e para trás os
retalhos do couro cabeludo, utilizando-se uma rugina. Em seguida, retira-se o
periósteo da calvária, desinserindo e rebatendo os músculos temporais. Depois
serra-se a calvária em sentido horizontal, com o cuidado de não aprofundar-se
em demasia, para não lesarem os planos mais profundos. A serra mais indicada é
a do tipo Stryker, própria para ossos, mas também podem ser utilizadas serra de
gesso ou até mesmo serras manuais. Retirada a calvária, é feita a retirada das
meninges, cortando-se a dura máter rente ao corte de serra da calvária. O
encéfalo é então tracionado levemente para trás, até se expor a tenda do
cerebelo, que é seccionada.. Também deve ser seccionada neste momento a medula
espinhal. Desta forma todo o encéfalo é liberado, sendo retirado para
exame. Geralmente após a inspeção do
encéfalo, nele são realizados vários
cortes transversais, geralmente feitos com a faca de Collin. Na base do crânio,
é descolada toda a dura –máter, para se examinar todas as fossas cranianas.
Após o exame do crânio, é feita uma incisão
biacrômio-esterno-pubiana, ou mento pubiana, tendo novamente o cuidado de
desviar a incisão de quaisquer lesões encontradas no caminho. Rebate-se toda a
musculatura do tórax lateralmente, deixando as costelas expostas. A articulação
costoclavicular é separada com o bisturi, e as demais costelas são quebradas
com o uso do costótomo, procedendo assim a retirada do plastrão costal (ou
condroesternal). A parte abdominal deve ser aberta tendo o cuidado de não se
aprofundar demais o corte para não perfurar as alças intestinais.No abdomem, a
incisão deve se desviar do umbigo.
Após as cavidades estarem expostas, inicia-se
o exame dos órgãos internos. Como se trata de uma necropsia médico-legal, o
interesse maior está em identificar e descrever as lesões que foram
encontradas: fraturas, hematomas, e também deve se proceder a retirada de
projéteis (se houver), e também a determinação da trajetória dos mesmos. Se
houver sangue na cavidade torácica (hemotórax) ou abdominal (hemoperitônio), o
mesmo deve ser retirado e seu volume dever ser medido.
Se porventura algumas
alterações foram encontradas em certos órgãos (edema pulmonar, antracose, etc) elas também devem ser descritas no laudo
cadavérico. Porém, lembrando que o objetivo desta necropsia está relacionado ao
seu aspecto jurídico.
A cavidade vertebral não
é aberta na necropsia médico-legal, exceto quando existem traumatismos
(traumatismo raqui-medular) ou quando nela se alojam projéteis.Neste caso, ela
é aberta da seguinte forma: após ser feita uma incisão nos processos
espinhosos, a pele é rebatida juntamente com os planos musculares, até serem
expostas as lâminas vertebrais. As lâminas então são serradas de um lado e de
outro, até serem retiradas em conjunto, expondo-se a dura máter.
Após estes exames, os
órgãos que porventura foram retirados (de acordo com a técnica de necropsia
utilizada) são colocados novamente no cadáver, e o mesmo é totalmente suturado
e limpo pelo técnico em
necropsia. Um importante detalhe que não pode ser esquecido é
a identidicação correta do cadáver no final da necropsia, com a etiqueta sendo
presa no seu pé.
NECRÓPSIA CLÍNICA
A necrópsia clínica é feita em casos de morte
natural. Os casos de morte natural não são da competência dos Institutos de
Medicina Legal a não ser em casos de
morte natural com algum tipo de suspeita
(como por exemplo no caso de suspeita de erro médico, ou quando o
corpo é encontrado em avançado estado de
putrefação).
No
caso de morte natural ocorrida dentro de Hospital, público ou
particular, é da competência do médico
que atendia o paciente o fornecimento da declaração de óbito. Mesmo os óbitos
que ocorrem dentro de ambulâncias são considerados óbitos hospitalares, já que
estão sob responsabilidade do hospital. Cabe salientar que estamos nos
referindo somente aos casos de morte natural; se um paciente foi ferido por
arma de fogo e ficou internado em um hospital, vindo a morrer depois de algum tempo, ele deverá
ser encaminhado ao IML, pois a causa de sua morte foi violenta.
No caso das mortes naturais
ocorridas em residência, se o paciente estiver sob tratamento médico, cabe ao
médico fornecer a declaração de óbito. Caso não haja nenhum médico que ateste o
óbito, o corpo deverá ser enviado para o SVO- Serviço de Verificação de Óbito,
subordinado a Secretaria de Saúde. O SVO existe em diversas localidades do
país. No caso do Distrito Federal, ele ainda não foi implantado. Desta forma,
os cadáveres vítimas de morte natural em residência também são enviados ao IML
para expedição da Declaração de óbito
Quanto a pessoa dá entrada no
hospital sem vida, vítima de morte natural, seu corpo também é enviado para o
SVO, ou, no caso do DF, para o IML.
A
necropsia clínica, então , é a necropsia realizada em casos de mortes naturais,
com a finalidade de se verificar a causa da morte, que geralmente ocorre por
causa de alguma patologia Esta patologia pode ser de evolução rápida
(infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral) ou decorrente de uma
processo que já estava acometendo a
pessoa durante algum tempo (tumores, pneumonia,etc)
A
necropsia clínica é particularmente indicada nos seguintes
casos:
- Pacientes internados que morrem sem diagnóstico
firmado
- Óbito hospitalar nas primeiras horas de internação
- Óbito de mulheres no ciclo grávido-puerperal
- Óbito inesperado de paciente com diagnóstico
clínico e tratamento corretos
- Óbito de pacientes em protocolo de tratamento
experimental
- Pacientes com doenças ambientais ou ligadas à sua
profissão
- Morte de crianças e recém-nados
- Óbitos inesperados no pós-operatório imediato
Atualmente há
um declínio no número de necropsias realizadas no mundo inteiro. Isto se deve a
múltiplos fatores, entre eles o custo da necropsia, a falta de remuneração pela
sua realização (de um modo geral os planos de saúde não pagam pelo
procedimento), o tempo despendido na sua realização, a falta de interesse de
médicos assistentes e patologistas, a crença infundada de que os novos métodos
de exame (principalmente radiológicos) a tornam desnecessária e a recusa pelos
parentes do morto da autorização para a sua realização.
SVO – SERVIÇO DE VERIFICAÇÃO DE ÓBITO
O SVO tem por finalidade esclarecer causa mortis em casos de óbito por
moléstia mal definida ou sem assistência médica . Dessa forma os casos de morte
natural sem que haja definição de causa de óbito são encaminhados ao SVO para
realização de autópsia. Entre as atividades desenvolvidas pelo Serviço, essa é
a que melhor caracteriza a prestação de serviço à comunidade desempenhada pelo
SVO.
Os casos de morte natural não são
da competência do Instituto Médico Legal (não são “casos de polícia”) a não ser
em casos de morte natural com algum tipo de suspeita (como por exemplo, no caso
de suspeita de erro médico).
No caso de morte natural ocorrida dentro de Hospital, público ou
particular; é da competência do hospital o fornecimento da declaração de óbito.
Mesmo os óbitos que ocorrem dentro de ambulâncias são consideradas óbitos
hospitalares, já que estão sob a responsabilidade do hospital. Cabe salientar
que estamos nos referindo somente aos casos de morte natural; se um paciente
foi ferido por arma de fogo e ficou internado em um hospital,vendo a morrer
depois de alguem tempo, ele deverá ser encaminhado ao IML, pois a causa da
morte foi violenta.
No caso das mortes naturais ocorridas em residências, se o paciente
estiver sob tratamento médico, cabe ao médico fornecer a declaração de óbito.
Caso não haja nenhum médico que ateste o óbito, o corpo deverá ser enviado ao
SVO – Serviço de Verificação de Óbito, subordinado à secretaria de saúde. O SVO
existe em diversas localidades do País. No caso do Distrito Federal, não existe
SVO.
Desta forma, no
Distrito Federal os cadáveres vítimas de morte natural em residências também
são enviados ao IML para expedição da declaração de óbito após necrópsia.
A obrigatoriedade
e a necessidade da necropsia nos casos de morte violenta estão disciplinadas no
código processual penal. Portanto, não necessita de autorização de nenhum
familiar para que ocorra. Para que o exame necroscópico seja realizado
necessita-se salas de salas com ventilação e iluminação adequada, com
equipamentos completos e instrumentos cirúrgicos, geladeiras para conservação
dos cadáveres
e apoio técnico –
científico de laboratórios de toxicologia, análises clinicas e de anatomia
patológica e histopatologia.
O manual do Ministério da Saúde, intitulado "A declaração de óbito:
documento necessário e importante", conceitua o serviço de verificação de
óbito como sendo,
"... o órgão
oficial responsável pela realização de necropsias em pessoas que morreram sem
assistência médica ou com diagnóstico de moléstia mal definida".
As leis municipais
que os criam já estabelecem suas finalidades. A Lei nº 5.452, de 22 de dezembro
de 1986, a qual "Reorganiza os Serviços de Verificação de Óbitos no Estado
de São Paulo", traz em seu artigo 2º, quais são as finalidades do SVO,
estabelecendo que;
"Os Serviços
de Verificação de Óbitos têm por finalidade:
I - esclarecer a
''''causa mortis" em casos de óbito por moléstia mal definida ou sem
assistência médica;
II - prestar
colaboração técnica, didática e científica aos Departamentos de Patologia das
Faculdades de Medicina, órgãos afins ou outros interessados, participando de
seus trabalhos e podendo funcionar nas suas dependências e instalações".
DO MOMENTO DA
MORTE.
Hoje no Brasil o
assunto está pacificado, pois a Lei nº 9.434/97 estabeleceu em seu artigo 3º
que, considera-se morto o indivíduo quando ocorrer a:
"... morte
encefálica, constatada e registrada por dois médicos não participantes das
equipes de remoção e transplante, mediante a utilização de critérios clínicos e
tecnológicos definidos por resolução do Conselho Federal de Medicina."
ORGANOGRAMA
DA DECLARAÇÃO DE ÓBITO
TRAUMATOLOGIA FORENSE
Estuda
as lesões e estados patológicos, imediatos ou tardios, produzidos por violência
sobre o corpo humano. Trauma é a atuação de uma energia externa sobre o corpo
da pessoa, com intensidade suficiente para provocar desvio da normalidade, com
ou sem expressão morfológica. Lesão é a alteração estrutural proveniente de uma
agressão ou trauma ao organismo.
As
energias causadoras de traumas no organismo humano podem ser classificadas de
diversas maneiras.
Na
classificação do autor Genival França, elas se dividem da seguinte maneira:
a) energias de ordem mecânica
b) energias de ordem física
c) energias de ordem química
d) energias de ordem físico-química
e) energias de ordem bioquímica
f) energias de ordem biodinâmica
g) energias de ordem mista
Já
na classificação adotada pelo professor Hygino Hércules, as energias se dividiriam da seguinte maneira
a) energias de ordem física
b) energias de ordem química
c) energias de ordem físico-química
Nesta
apostila, iremos utilizar a classificação proposta por Genival França
1)
ENERGIAS DE ORDEM MECÂNICA
São aquelas capazes de modificar
o estado de repouso ou movimento do corpo, produzindo lesões.
Os meios mecânicos propriamente ditos vão
desde as armas propriamente ditas (punhais, punhos, pés, dentes) até outros
meios (automóveis, quedas, etc)
Eles são capazes de lesar porque
transferem toda a energia cinética, ou parte dela, para a área em que entram em contato. Por exemplo,
um projétil de arma de fogo, apesar de pequena massa, possui energia suficiente
para penetrar nos tecidos mais resistentes por causa de sua velocidade. Um
machado, atuando com a mesma velocidade
de uma faca, produz lesão mais profunda por ser dotado de maior massa.
A transferência de energia de um agente
mecânico para o corpo pode ser classificada de acordo com sua forma. Por
exemplo, contato por meio de uma superfície (agente contundente), contato por uma ponta (instrumento
perfurante), por uma borda afiada (instrumento cortante), por uma ponta e por
uma borda, simultaneamente (instrumento perfuro-cortante), por uma borda
aguçada, com grande massa (instrumento corto-contundente), por uma ponta romba
(instrumento perfuro-contundente).
Desta forma, os meios mecânicos se
classificam em
1.1- perfurantes
1.2- cortantes
1.3- contundentes
1.4- pérfuro-cortantes
1.5- perfuro-contundentes
1.6- corto-contundentes
1.1-
LESÕES CAUSADAS POR AÇÃO
PERFURANTE
São causadas por instrumentos pontiagudos,
como agulhas, estilete e o furador de gelo. Atuam por pressão, afastando as
fibras do tecido e atingindo grande profundidade corporal.
As lesões causadas por esses instrumentos
são denominadas punctórias, porque no seu aspecto externo se assemelham a um
ponto. Geralmente sangram pouco, e o seu diâmetro é menor do que o diâmetro do
que o instrumento causador, por causa da grande elasticidade da pele humana.
Quando o diâmetro do instrumento é mais
calibroso, as lesões podem tomar a aparência de “casa de botão” ou triangular.
A gravidade destas feridas está
relacionada aos processos de infecção que podem ocorrer pela penetração de
bactérias juntamente com o instrumento causador da lesão.
Estas lesões podem atingir vísceras
internas, causando hemorragia. São mais
comuns de origem acidental, raramente usadas em agressões.
1.2- LESÕES CAUSADAS POR AÇÃO CORTANTE
Instrumentos
cortantes são aqueles que, agindo de modo
linear sobre a pele e os órgãos, produzem as feridas cortantes (sinônimo: feridas incisas), cujas
características são as seguintes:
a) bordos
nítidos e regulares
b) ausência de outros vestígios traumáticos em
torno da lesão
c) secção
perfeita dos tecidos moles subcutâneos
d) hemorragia
abundante
e) predominância
do comprimento sobre a profundidade
f) cauda
de escoriação no sentido caudal da lesão
São exemplos de instrumentos que causam lesões incisas: gilete,
bisturi, navalha, facas, canivetes.
O sentido do deslocamento do instrumento no momento do corte pode ser
avaliado pela posição da cauda de escoriação, que mostra a saída do gume.
Dentro das lesões cortantes existe o que se chama esquartejamento, que consiste
no ato de dividir o corpo em partes (quartos) por amputação ou
desarticulação de membros, quase sempre com o objetivo do autor livrar-se
criminosamente do cadáver ou impedir sua identificação.
Quando
as lesões incisas ocorrem em determinadas partes do corpo, elas são
classificadas de modo específico:
Esgorjamento: é
a ferida incisa que ocorre na região anterior do pescoço. Esta ferida se
encontra entre a laringe e o osso hióide, podendo ser anterior, lateral ou
antero-lateral. O afastamento das bordas
é muito acentuado, com a impressão que falta um pedaço do pescoço. Algumas
vezes é tão profunda que atinge os ossos da coluna cervical. Quando um indivíduo sofre esgorjamento e
consegue se salvar, geralmente surge diversas complicações como edema de glote,
coleções purulentas nas vizinhanças, secções nervosas produzindo afonia,
paralisias, perda de sensibilidade, disfagia (impossibilidade de comer).
No
caso da morte ser instantânea, na necrópsia encontramos geralmente lesão de
grandes vasos (artéria carótida e veia jugular), lesão dos nervos frênico e
pneumogástrico e asfixia em virtude da penetração de sangue nas vias
respiratórias.
O
esgorjamento pode ser conseqüência de um homicídio ou de suicídio. Um caso
suposto de suicídio, executado com vários ferimentos no pescoço, se a vítima
tiver as mãos limpas, é um caso suspeito.
Degolamento Aqui a ferida incisa se localiza na nuca. Em
alguns casos o ferimento é superficial, mas geralmente é profundo, chegando a atingir a coluna cervical. A morte
ocorre por hemorragia quando se atingem
os vasos calibrosos da região. Um degolamento profundo e violento, que chegue a
atingir a coluna vertebral, fala a favor
de homicídio, porque é difícil a vítima produzir sozinha uma lesão tão
violenta.

Lesão das articulações: A ferida incisa
nas articulações como as pregas dos cotovelos ou dos punhos sugere suicídio.
Geralmente a pessoa secciona estes locais e mergulham o membro em água morna,
para facilitar a hemorragia.
1.3-
LESÕES CAUSADAS POR AÇÃO CONTUNDENTE
Instrumento
contundente é todo objeto rombo, capaz de agir traumaticamente sobre o
organismo. Os instrumentos contundentes
podem agir de modo ativo ou passivo. No primeiro caso, o objeto choca-se contra o indivíduo
(exemplos,nos atropelamentos, desabamentos) e no segundo caso, o indivíduo
choca-se contra o objeto (como por exemplo nas quedas).
As
energias que causam as lesões contusas agem por pressão, explosão,
deslizamento, torção, contragolpe. As lesões causadas pelos instrumentos
contundentes produzem lesões típicas, que são exemplificadas a seguir:
a) Ferida
contusa: caracteriza-se por ser uma
ferida aberta onde a força do instrumento foi capaz de vencer a resistência e a
elasticidade dos tecidos. Nela encontramos: bordas irregulares, equimoses e
escoriações nas margens.
b) Escoriações:
chama se escoriação o arrancamento da epiderme, deixando a derme exposta. Como
a derme é ricamente vascularizada, fluem serosidade e sangue, daí a formação de
crosta no processo de cura. È causada
geralmente por ação tangencial do instrumento contundente. A escoriação, após
sua cura, não deixa marcas. São importantíssimas na medicina legal, pois
através delas podemos saber se a lesão foi produzida em um indivíduo vivo ou
num cadáver Se a lesão for produzida no cadáver, não haverá formação de crosta.
As escoriações podem ser pinceladas (produzidas por cascalho), em placa
(produzidas por asfalto), apergaminhadas (encontradas no sulco dos
enforcamentos) ungueais (produzidas por unhas). As crostas começam a cair por
volta do quarto dia e a pele é regenerada por volta do décimo quinto dia.
c) Equimoses:
São lesões onde há rotura de capilares e
extravasamento de sangue para os tecidos. Após a violência, produz-se a rotura
de um vaso, e o sangue que daí flui vai incorporando-se a trama das fibras e
das células próximas ao foco da contusão. Quando profunda pode levar até quatro
dias para aparecer. Elas possuem um grande valor médico legal, pois através do
seu exame podemos descobrir o tempo decorrido desde o evento. Tal descoberta se
dá porque com o passar do tempo ela muda de tonalidade. O grande estudioso
LEGRAND DU SALLE criou um espectro equimótico que nos permite calcular
aproximadamente o tempo transcorrido de acordo com a tonalidade: a) vermelha no primeiro dia, b) violácea do
segundo ao terceiro dia, c) azul do quarto ao sexto dia, d) esverdeada do sétimo
ao décimo dia, e) amarela no décimo segundo dia, e f) desaparece entre o décimo
quinto e o vigésimo dia. A equimose da conjuntiva ocular (o popular “olho
roxo”) não muda de tonalidade devido ao alto grau de oxigenação local, que
impede a transformação da oxi-hemoglobina.
d) Hematomas:
É um acúmulo sanguíneo, devido a rotura de vasos calibrosos. Usando uma
comparação grosseira, poderíamos dizer que
a equimose é semelhante a chuva que penetra na terra durante uma chuva,
se infiltrando completamente no solo, enquanto o hematoma seria uma poça de
lama, onde a água se acumula.
e) Bossa
sanguínea: corresponde a uma coleção sangúinea localizada sobre um plano
ósseo superficial
f) Rubefação:
trata-se de congestão de uma região do corpo, fugaz, e portanto exige urgência
na realização da perícia, sob pena de desaparecer. Exemplo: tapa na região
glútea
g) Fraturas:
classificam-se em: expostas (quando os
fragmentos ósseos lesam os tecidos ao seu redor, incluindo a pele), fechadas (quanto a pele não sofre solução de
continuidade), cominutivas, (quando existem mais de dois fragmentos ósseos),
instáveis (quando não há boa coaptação dos fragmentos) estáveis (quando há
coaptação), intraarticulares e extraarticulares.
h) Luxações:
são lesões que implicam na perda de contato
entre dois ossos em uma articulação, e conseqüente lesão dos ligamentos e perda
de estabilidade articular.
i)
Entorses: são lesões articulares
produzidas por força de torção, onde há rotura parcial dos ligamentos,
implicando em aumento do volume da articulação, dor e impotência funcional
temporária. Um tipo especial de entorse ocorre na coluna cervical, nos
acidentes de trânsito, onde um carro colide com a traseira de outro que está
parado. Neste caso há um movimento exagerado em extensão da região cervical das
pessoas que estão no carro parado, fazendo distensão dos ligamentos da coluna
cervical.
j)
Edema traumático: corresponde
a alterações circulatórias onde há extravasamento de líquido para o
espaço extra-celular produzindo elevação da pele.
Tipos
comuns de contusões encontradas na prática médico-legal
CONTUSÕES DO TÓRAX :
Geralmente são determinadas por diversas causas, como:
-O indivíduo
cai ao solo, projetando o tórax contra objetos como pedras, pedaços de madeira,
etc;
-O choque
traumático (socos, pontápés, pauladas) atinge o indivíduo na região torácica;
-O
indivíduo sofre um atropelamento e o tórax fica colhido entre a roda do veículo
e o solo – nesta hipótese, o traumatismo pode produzir rotura dos pulmões,
fratura das costelas (cujos fragmentos irão lesar os pulmões). Na necrópsia comumente
se encontra grande quantidade de hemotórax (sangue na cavidade torácica), e
algumas vezes lesões como a rotura do coração ou dos vasos da base.
CONTUSÕES
DO ABDOME: Os instrumentos contundentes
podem agir sobre o abdome de modo análogo aos focalizados nas contusões do
tórax. Neste caso, é comum a rotura das
vísceras abdominais, como o estômago, intestino e bexiga. Na necrópsia o perito encontra geralmente
hemoperitônio, ou seja, sangue em grande quantidade na cavidade abdominal
(quantidade que pode alcançar até mesmo 2 litros de sangue)
OUTROS
TIPOS DE CONTUSÕES:
Algumas
feridas contusas são produzidas pelas mãos do homem, produzindo pressão, e até
mesmo arrancamento, como é o caso das equimoses e escoriações causadas pelas
unhas, e lesões graves como arrancamento de órgãos genitais
Alguns corpos
são esmagados por veículos pesados (como ônibus e caminhões) de tal maneira que
o corpo da vítima fica reduzido a retalhos quase que irreconhecíveis.
As
precipitações ou quedas de grande altura causam lesões características. No
exame cadavérico encontra-se integridade total ou quase total da pele. As
fraturas do esqueleto são a regra, e ocorrem geralmente no crânio, na bacia, e
sobretudo nos ossos da perna e do pé. Quando a queda é em pé, há rotura dos
órgãos internos em conseqüência do abalo que as vísceras sofrem quando o corpo
se choca contra o solo.
1.4 LESÕES
CAUSADAS POR AÇÃO PÉRFURO.CORTANTE
Instrumentos
perfuro cortantes são aqueles que, além de perfurar, exercem ação cortante. Estes
instrumentos possuem uma ponta e um ou mais gumes. Exemplo dos instrumentos
são: faca de cozinha, punhal, peixeira.
Os ferimentos
causados por instrumentos perfuro-cortantes possuem as seguintes
características:
A
ferida se apresenta de forma triangular ou em forma de flecha, ou em forma de
casa de botão. Se o instrumento agir de forma oblíqua, produzirá um pequeno bisel na pele. Se
encontrar alguma dobra de pele, poderá ficar em forma de ziguezague.
As
vísceras, como o baço e o fígado, apresentam, quando atingidas por esses
instrumentos, um ferimento semelhante ao
encontrado na pele, porém, com tendência a ter um diâmetro maior do que o
diâmetro da arma utilizada. Sendo a víscera de consistência fibrosa, como o
estômago, o ferimento toma direções que variam de acordo com a
transição da camada mucosa para a
muscular;
Em
alguns casos, como nos ferimentos causados no abdômen, o trajeto observado é
maior do que o tamanho da arma, porque
geralmente o homicida, com a violência do golpe, comprime a parede abdominal
produzindo um aumento no tamanho do ferimento.
Quando
esses instrumentos agem sobre o crânio, podem chegar inclusive a penetrá-lo de
acordo com a força com que são impelidos contra o mesmo.
Quando
são localizados no tórax, geralmente atingem os vasos mais calibrosos dos
pulmões e até mesmo os brônquios, sendo
que nestes casos a morte sobrevém de modo rápido. A necrópsia vai apurar
ferimentos na pele, no gradil torácico, nos pulmões ou no coração, e grande
quantidade de sangue dentro das cavidades torácicas.
Outras
vezes, quando o indivíduo não morre imediatamente, sobrevém seqüelas
infecciosas, com formação de pus dentro das cavidades pleurais.
Um
dado curioso é que os instrumentos produzidos por instrumentos perfuro
cortantes no coração possuem geralmente a
forma de V, L ou Z, porque o coração, depois de perfurado, continua a
contrair-se,e assim vai se cortando no gume da arma.
Nos
ferimentos em que são atingidas as vísceras ocas como o intestino e o estômago,
alem dos danos causados pela ferida em si, processa-se uma grande
contaminação da cavidade abdominal,
causando-se uma peritonite, que quando evolui para a morte causa aderências,
pus fétido, depósitos fibrinosos, etc.
Um
aspecto importantíssimo a ser considerado
diz respeito as chamadas “lesões
de defesa”: estas lesões são encontradas na região das mãos, antebraço
ou na borda cubital do antebraço. Estas
lesões surgem da tentativa da vítima em se livrar do ataque do agressor,
caracterizando luta e resistência por parte da vítima. Elas podem ser
encontradas tanto nas lesões perfuro-cortantes quanto nas lesões cortantes.
No
caso dos suicídios realizados por estes tipos de instrumentos, observa-se
geralmente a presença das “lesões de
hesitação”, caracterizadas por múltiplos entalhes e escoriações lineares no início ou do lado da ferida
principal. Estes entalhes e escoriações devem se ao fato do suicida realizar o
ferimento em pequenos golpes, inclusive
para testar sua sensibilidade à dor.
Outro detalhe interessante no suicídio é que geralmente o suicida afasta
a camisa antes de se suicidar com uma facada no peito.
1.5 LESÕES
CAUSADAS AÇÃO PÉRFURO-CONTUNDENTE
São as lesões causadas por projéteis de arma de fogo, que perfurem e
contundem ao mesmo tempo.
Quando observamos estas lesões, elas se
assemelham as lesões produzidas por instrumentos perfurantes, porém sempre
apresentam os bordos contundidos.
As armas de fogo dividem-se em armas de cano curto e de cano
longo. As de cano curto compreendem as pistolas e os revólveres; as de cano
longo, os fuzis, as espingardas e os rifles.
No estudo da munição, vamos examinar:
a) a
pólvora: as pólvoras mais usadas são a pólvora negra e a piroxilada. A
pólvora negra é formada por uma mistura de carvão, salitre e enxofre. A pólvora
piroxilada tem como base a nitrocelulose. Quando a pólvora entra em combustão,
há a deflagração de gases da explosão que podem produzir grandes lesões
cutâneas e viscerais. A chama produzida
pela combustão da pólvora pode queimar os pelos e até mesmo as vestes. Os grãos
de pólvora não comburados adquirem também grande força, transformando-se em
projéteis secundários, que são capazes de perfurar a pele, alojando-se nela.
Essas partículas formam incrustações cutâneas, conhecidas com o nome de
tatuagens. Elas são importantes para o estudo de problemas médico-legal, que
veremos mais adiante.
b) O
projétil: Pode ser constituído por bala ou por cargas de chumbo. As balas
atuais possuem formato cilíndrico-cônico. A maioria é constituída por chumbo.
Os principais movimentos do projétil são o de propulsão (deslocamento para a
frente) que resulta da força expansiva dos gases, e o de rotação, que é causado
pelas ranhuras existentes dentro dos canos, visando vencer a resistência do ar.
A velocidade dos projéteis varia de acordo com o tipo de arma. Geralmente,
nos revólveres comuns ela é de 200 metros por segundo.
(aproximadamente 720 km/h ).
c) cápsula:
corresponde ao estojo de metal que contém a pólvora, sendo, geralmente,
formada por liga metálica de cor amarelada.
Entre as características dos ferimentos produzidos por armas de fogo:
A) Orifício de
entrada. Geralmente ele possui o formato
redondo ou ligeiramente ovalado. Quando o projétil não chega a penetrar na
pele, limitando-se a atingi-la de raspão, produz escoriações de forma alongada.
Quando o ferimento é
produzido pela arma encostada, encontramos as seguintes características:
-
Sinal de Werkaetner: é o desenho na pele,
produzido pela queimadura da boca do cano da arma e da alça de mira.
-
Câmara de mina de Hoffman: é o resultado da ação
dos gases que saem da arma, que descolam os tecidos, produzindo bordas
irregulares e denteadas.
-
Sinal de Benassi: encontrado nos tiros
encostados na cabeça, onde produz um halo enegrecido no osso.
-
Crepitação nos tecidos adjacentes, devido aos
gases que penetram nos tecidos
Quando o
ferimento é produzido por tiro a curta distância encontraremos outros
sinais:
-Bordas invertidas
devido a ação de fora para dentro
-Zona de contusão: é a
região da ação contundente do projétil devido ao seu movimento rotatório
-Zona de enxugo:
corresponde ao depósito da sujeira levada pelo projétil
-Tatuagem: deve-se ao
impacto dos grãos de pólvora incombustos, que deixam marcas na pele
-Orla de esfumaçamento: decorrente do depósito de fumaça sobre a pele.
-Zona de
queimadura: provocada pelo calor dos
gases
Quando o ferimento é produzido por
tiro efetuado a longa distância encontraremos:
- orla de escoriação
-zona equimótica
-zona de enxugo
É
importante salientar que, no estudo dos orifícios de entrada de projetis
durante o exame médico legal as vestes do cadáver são elementos que muitas
vezes auxiliam na identificação da distância do tiro. Muitas vezes, a tatuagem
se fixa na roupa, e também através do exame das vestes o perito pode comparar
os orifícios presentes no corpo com aqueles presentes na roupa.
B) Trajetória do projétil: É o
caminho produzido pelo projétil. Dentro
do organismo, a trajetória do projeto pode se alterar dependendo da potência da
arma, da distância do tiro, das estruturas atingidas (se atingir um osso, por
exemplo, pode mudar de direção). Há
casos onde o projétil é encontrado em
pontos inesperados. É de grande importância definir a trajetória do projétil
por causa de suas implicações legais: o perito médico legista deverá definir,
para cada projétil, sua trajetória (se foi de baixo para cima, da direita para
esquerda, de frente para trás) pois esse resultado irá ser de grande valia para
a perícia da criminalística.
O
legista também definirá qual ou quais projetis foram letais; isto é importante,
por exemplo , no caso de uma pessoa ser vítima de vários projetis efetuados por
pessoas diferentes; se um dos atiradores atingir o coração, e outro atingir
somente o plano muscular, o primeiro será indiciado por homicídio, e o segundo,
por tentativa de homicídio e lesões corporais.
Na
prática médico legal muitas vezes encontramos dificuldades para retirar
projetis, principalmente quando eles se encontram dentro de estruturas ósseas
como a coluna vertebral. Há casos em que
o estudo da trajetória se faz com maior trabalho, como por exemplo quando a
bala cai dentro do estômago e intestino,por exemplo.
C)
Orifício de saída: Quando o projétil atravessa o cadáver, dizemos que ele foi
transfixante. Neste caso, encontramos geralmente um orifício de saída com
formato de fenda, ou então,com formato irregular. Em algumas vezes encontramos
as bordas evertidas.
O
estudo destes tipos de lesões também é importante para determinar a causa jurídica da morte, como por exemplo
para diferenciar homicídio do suicídio;
no caso do suicídio, o tiro invariavelmente deverá ter características
de curta distância ( no caso de suicídio por tiro na cabeça, ocorre o chamado
falso tiro encostado: a pessoa encosta a arma na cabeça, porém no último
segundo antes de apertar o gatilho,
afasta um pouco a arma, descaracterizando o tiro encostado), assim como também no
suicídio encontraremos vestígios de pólvora nas mãos da vítima.
1.6 LESÕES CAUSADAS POR AÇÃO CORTO-CONTUNDENTE
São
as lesões causadas por instrumentos corto-contundentes, que são aqueles que,
dotados de grande massa, transferem sua energia por meio de um gume. São
exemplos desses tipos de instrumentos: machado, foice, enxada, facão
Ao
contrário dos instrumentos cortantes, que agem mais por deslizamento, os
corto-contundentes agem mais por pressão. O gume força os tecidos, penetra e
abre caminho para a cunha que constitui o instrumento. Geralmente, atravessam
as partes moles do corpo e se detém somente ao alcançar os ossos. Em alguns
casos, pode chegar a causar a decapitação, como no caso da guilhotina.
Estas
feridas, quando causadas no crânio, chegam a provocar fraturas , e em locais
como os membros podem causar desmembramento. As feridas causadas por estes
instrumentos tem bordas retas, porém com escoriações ao redor. São bastante
profundas, e a abertura dos seus lábios depende da profundidade atingida. Não
apresentam cauda de escoriação
A
mordidas causadas pelo homem ou animais também são consideradas lesões
corto-contusas. Quando a mordida é leve, ocorrem equimoses e escoriações; se
for mais profunda, o tecido se rompe, causando a lesão corto-contusa
propriamente dita
2) ENERGIAS
DE ORDEM FÍSICA
TEMPERATURA
Calor: Queimaduras. Podem ser causadas por
chamas, calor irradiante, gases superaquecidos, líquidos escaldantes, e raios
solares. A classificação para as
queimaduras proposta por Hoffman é:
Grau I – Eritema, onde as partes queimadas
se mostram de cor vermelha, suscetíveis de desaparecer em poucos dias.
Grau II- Vesículas- Forma-se uma vesícula cheia de serosidade, clara e
límpida
Grau III-Planos musculares. A queimadura atinge o corpo mucoso e a
superfície muscular, formando, com o tempo, uma
escara que se desprende em massa
Grau IV- Carbonização- A queimadura destrói completamente o
tecido,chegando até os ossos.
A sintomatologia das queimaduras
varia de acordo com a intensidade e a extensão das queimaduras. No cadáver
vítima de queimadura geralmente encontramos pêlos chamuscados, e nos casos mais
graves, escaras de cor amarelo ou esbranquiçada. No exame interno do cadáver
encontra a maioria das vísceras hiperemiadas, especialmente no cérebro; o
sangue é ao mesmo tempo espesso e coagulado. Os rins apresentam lesões graves,
e também encontramos equimoses nas mucosas do aparelho digestivo.
Quando
uma pessoa sofre uma extensa queimadura
em seu corpo, ainda que não sejam
queimaduras graves, geralmente sobrevém a morte, pois a pele é a principal barreira que nosso corpo
possui contra a invasão de microorganismos.
Um
dos exemplos é o clássico caso do índio Galdino Pataxó, que foi vítima de
queimaduras em mais de 80 % do corpo, pela ação de adolescentes que nele
atearam fogo depois de despejarem uma garrafa de álcool enquanto ele dormia; Apesar de ter sido prontamente socorrido, e
de nenhuma de suas queimaduras ultrapassarem
a derme, o fato delas terem uma grande extensão o levou a morte. No Distrito Federal, o HRAN é o hospital
especializado no tratamento de queimados, e
é muito comum os chamados “grandes queimados” morrerem dias após sua
internação, vítimas de infecções como a septicemia ou pneumonia. É muito comum também ocorrer
falência renal.
Porém,
existem exceções, como o caso da estudante venezuelana Jaqueline Saburido, que
em um acidente de trânsito teve seu corpo atingido por queimaduras gravíssimas
que atingiram mais de 80% do seu corpo. Essa jovem, apesar de ter ficado
desfigurada (perdeu as orelhas, nariz, visão de um olho, os cabelos, e as duas
mãos) conseguiu sobreviver ao acidente. Na
carbonização os sinais que o cadáver apresenta são bastante diferentes
daqueles encontrados nos cadáveres vítimas de queimaduras: esses sinais são:
-o
cadáver sofre uma intensa diminuição de tamanho, devido, principalmente, a
intensa desidratação que ele sofreu (pois o corpo humano é formado por mais
de 60% de água) Há ocasiões em que um corpo de um adulto fica do
tamanho do corpo de uma criança.
-o
cadáver adquire uma posição denominada posição de boxeador, onde os antebraços
se fletem levemente sobre os braços e são trazidos para a frente do tórax, ao
mesmo tempo em que as mãos se fecham. Ao mesmo tempo, os membros inferiores
afastam-se entre si, e fletem-se
levemente na altura do joelho.
-Algumas
lesões podem confundir os médicos legistas, e é preciso que eles se mantenham
atentos: para elas:
-No
crânio poderemos encontrar lesões de forma arredondada, parecidas com orifícios
de entrada de projetis de arma de fogo,
e também poderemos encontrar rachaduras e fendas. Essa lesões são
causadas pela expansão dos gases que se formam pelo aquecimento do encéfalo,
que adquire grande tensão e rompe a parede do crânio.
-Os
ossos longos, quase sempre o fêmur e o úmero, apresentam fraturas, também
causadas por causa a alta temperatura.
-As
cavidades torácicas e abdominais também se abrem em conseqüência da ação do
calor
-Os
dentes fendem-se e tendem a calcinar-se; o períneo fende-se na linha mediana.
Uma
das dúvidas presentes no exame de um cadáver vítima de queimadura é a seguinte:
as lesões foram produzidas antes ou depois da morte?
A
solução para este problema é simples: nas queimaduras feitas na pessoa já morta, não existe a formação do
eritema cutâneo.
Se
a lesão foi produzida na pessoa ainda viva, no cadáver encontraremos também a
presença do retículo vascular cutâneo, produzido pela coagulação vital do
sangue, dentro dos vasos, em conseqüência da ação do calor.
Outro
sinal importante é examinar a traquéia e a árvore brônquica em busca de
vestígios de fuligem. Se os mesmos forem encontrados, significa que a vítima
respirou. Esse tipo de observação é muito útil no exame de cadáveres vítimas de
incêndios.
Frio:
Geladura No Brasil, é raro encontrarmos pessoas mortas
por ação do frio. As vítimas do frio geralmente são os bêbados, os feridos, as
crianças recém nascidas que são abandonadas nas ruas.
O
indivíduo submetido a ação do frio intenso apresenta tremor acentuado dos
maxilares,os movimentos se tornam incertos e uma espécie de embriaguez invade
sua mente. O tremor vai se transformando em um sono irreversível que o leva ‘a
morte.
Em
alguns casos, somente uma parte do corpo sofre a ação do frio, a qua chamamos
de congelamento. Neste caso haverá a formação de lesões, que são chamadas de
geladuras, que se assemelham as queimaduras e possuem as seguintes
características:
-
eritema em que a pele se torna tensa e
vermelho-escura
-
flíctenas cheias de líquido de cor citrina clara
-
mortificação dos tecidos com aparecimento de
gangrena
Na necrópsia
encontraremos as seguintes características:
-O indivíduo mantém sua posição em
que estava no momento da morte
-A face tem expressão de terror, os
cabelos eriçados e os olhos muito abertos
-A rigidez muscular é forte, e o
sangue tem cor vermelho-viva.
ELETRICIDADE
A eletricidade age sobre o organismo
humano de duas maneiras. A primeira é a fulguração, ou seja, a eletricidade
natural presente na atmosfera. A segunda é a eletroplessão, , que é a ação da
eletricidade artificial.
Fulguração: O fato de indivíduos serem atingidos por raios é
conhecido desde os tempos antigos. Calcula-se que a carga elétrica de um
raio durante um milésimo de segundo
atinja de 10.000 a
300.000 amperes. Quando o indivíduo é atingido
por um raio e consegue sobreviver, dizemos que foi vítima de FULGURAÇÂO,. Geralmente ela
apresentará alguns sintomas característicos:
-
perturbações motoras e sensitivas
-
zumbidos, surdez permanente, perfuração dos
tímpanos
-
queimaduras intensas dos olhos, ulceração da
córnea,deslocamento da retina
Se a pessoa
porém vier a falecer em virtude de ter sido atingida por um raio, dizemos que
sofreu FULMINAÇÃO. No cadáver encontraremos os seguintes elementos:
-feridas contusas, perfuração da
planta dos pés
-queimaduras extensas, podendo chegar até mesmo em carbonização do corpo
-impregnação cutânea por objetos
metálicos que o indivíduo carregava (pulseiras, cordões).
No exame
necroscópico encontramos congestão vísceral, edema pulmonar e contusões das
vísceras internas.
Eletroplessão:
è o resultado da ação da corrente elétrica artificial sobre o organismo do ser
humano
Existem várias crendices
populares sobre acidentes com eletricidade que não correspondem a verdade. Uma
delas diz que indivíduos que sofrem uma corrente elétrica muito forte, de mais
de 1000 volts, estão irremediavelmente mortos, da mesma forma que o senso comum
acredita que as pequenas correntes de até 200 volts não costumam matar. Outros
ainda dizem que “quem mata no choque elétrico é a amperagem, não importando a
voltagem”
Tais crendices não tem qualquer
fundamento científico. Em relação a
eletroplessão, cada caso é um caso, e o fato do indivíduo morrer na hora ou
escapar vivo vai depender de vários fatores: a intensidade da corrente
elétrica que atravessa o seu corpo, a resistência que ele oferecerá a
passagem da corrente (por exemplo,o uso de roupas, sapatos) e o tempo em
que a pessoa ficou em contato com a corrente (por exemplo, uma pessoa pode
sofrer uma descarga de milhares de volts por menos de um segundo e sobreviver,
enquanto outra pode morrer se ficar em contato com uma pequena corrente por
muito tempo)
As lesões encontradas em pessoas
vítimas de eletroplessão são as seguinte:
-Queimaduras, que podem ser
localizadas em qualquer parte do corpo
-Marca elétrica de Jellineck: são
modificações da pele produzidas pela ação da eletricidade, e que se diferenciam
das queimaduras , por ter superfície externa lisa, onde a pele se
apresenta endurecida, as vezes expondo o
córion. Estas lesões mostram o local de
entrada e o de saída da eletricidade ao percorrer o corpo do indivíduo.
-O sangue conduz bem a eletricidade,
e desta forma os tecidos próximos aos grandes vasos sofrem várias lesões.
Na necrópsia de vítimas de
eletroplessão, além dos sinais acima, encontramos também:
-edema pulmonar
-edema cerebral
-petéquias no pericárdio, no coração
e em outras serosas.
ENERGIA BAROMÉTRICA
Consiste na alteração da pressão
atmosférica. O aumento da pressão atmosférica causa uma embolia traumática
gasosa, e é um mal que atinge os mergulhadores que não tomam os devidos
cuidados na hora de mergulhar em grandes profundidades e acabam subindo ‘a superficie
depressa demais.
A diminuição da pressão atmosférica
(mal das montanhas) também causa danos ao organismo, levando a hipóxia por
perda de oxigênio no sangue.
ENERGIA
RADIANTE
Os elementos radioativos causam
lesões semelhantes as lesões causadas pelas queimaduras de primeiro, segundo e
terceiro graus. Além disso, a longo prazo causam mutações no DNA das células,
levando a formação de tumores e outros tipos de cânceres, como a leucemia.
3) ENERGIAS DE ORDEM QUÍMICA
Vitriolagem : é o nome dado as
lesões causadas por agentes cáusticos, como os vários tipos de ácidos e a soda
cáustica. O nome vitriolagem vem do
vitríolo, que éo nome antigo para o ácido sulfúrico.
A vitriolagem pode ser criminosa ou
acidental. No caso da acidental,
trata-se de recipientes que contem líquidos cáusticos que explodem e atingem o
rosto ou corpo da vítima. Na criminosa, ocorre geralmente por motivo de
ciúme,onde o objetivo do criminoso é desfigurar a face da pessoa em questão.
A literatura médico-legal registra vários
casos de pessoas que jogaram ácidos até mesmo nos ouvidos de pessoas que
dormiam, levando-os a morte.
As escaras causadas por ácidos geralmente
são escuras e secas, causando uma quase carbonização local. Já aquelas causadas
por hidróxido de sódio (soda cáustica) são amareladas, úmidas e moles (aspecto
saponáceo).
Em alguns casos de tentativa de suicídio a
pessoa ingere soda cáustica, e acaba sofrendo uma lesão denominada colabamento
do esôfago, ou seja, as paredes do esôfago ficam coladas uma na outra, sendo
necessário intervenção cirúrgica para reabrir a passagem esofageana. Este
quadro geralmente evolui para a morte.
Se as substâncias atingirem os olhos,
podem causar cegueira permanente.
Atingido o rosto, podem causar cicatrizes
de aspecto desagradável que podem inclusive deformar a pessoa.
Venenos
A parte da ciência que estuda a ação dos
venenos ou substâncias tóxicas no organismo é chamada de toxicologia. A
Toxicologia, na Medicina Legal, é chamada de Toxicologia Forense, e é de grande
importância para apurar, em casos de morte por envenenamento, se foi suicídio,
homicídio ou acidente.
Antigamente eram muito comuns os crimes
por envenenamento, porque o atraso dos
laboratórios da época não permitiam uma identificação segura da causa mortis . Hoje, com o avanço da bioquímica e com os
modernos aparelhos dos laboratórios de cromatografia, é possível analisar qualitativamente e
quantitativamente os tipos de substâncias químicas encontradas no cadáver
vítima de envenamento.
Os venenos podem penetrar no organismo de
várias maneiras: por via
gastrointestinal (ingestão), pelas vias respiratórias, pela via intradérmica ou
hipodérmica, pela pele ou mucosas, ou diretamente pela corrente circulatória.
Geralmente, nos venenos ingeridos por via
oral, ocorra uma reação do organismo caracterizada por diarréia e vômitos.
As substâncias tóxicas agem sobre o
organismo de maneira muito variável em sua intensidade e modo de ação. Alguns
venenos matam rapidamente, como o cianureto de potássio; já outros agem lentamente.
Em relação ‘a necrópsia, no caso de
suspeita de envenenamento, deveráo ser retiradas amostras de todas as vísceras,
e também de sangue, urina e conteúdo gástrico para serem encaminhadas ao
laboratório de toxicologia para exame mais detalhado.
4 ENERGIAS
DE ORDEM FÍSICO-QUÍMICA
ASFIXIOLOGIA
A asfixiologia
forense é a parte da Medicina legal que estuda as asfixias. Todo ser vivo
respira, absorvendo oxigênio e liberando gás carbônico. O conceito vulgar de respiração consiste em
apenas “encher e esvaziar” de ar os pulmões, mas cientificamente se trata de um
processo bem mais complexo: o oxigênio que inspiramos na nossa respiração,
depois de chegar até os pulmões, é distribuído para todas as células do nosso
corpo, onde será utilizado em uma série de reações bioquímicas denominadas
respiração celular.
Nestas
reações,o oxigênio será usado para a célula produzir energia, ou seja, a
energia que nosso organismo utiliza não é proveniente somente dos alimentos: é
preciso oxigênio para quebrar as moléculas de glicose e tornar a energia
disponível.
Desta
forma, a falta de oxigênio nas células
acaba por causar vários danos, falta essa que ao se prolongar, leva o indivíduo
a morte por asfixia.
Curiosamente,
o termo asfixia vem do grego, (a sphyxis) e significa “ausência de pulso”.
A morte por
asfixia não é instantânea: geralmente leva quatro minutos. De acordo como
Código Penal, são cirscunstâncias
agravantes ter o agente cometido o crime “com emprego de veneno, fogo,
explosivo,asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel”
Quando se
observa um ser vivo se asfixiando, nota-se que ele executa fortes movimentos
inspiratórios, na tentativa de obter mais oxigênio. A seguir, observam-se
movimentos expiratórios, acompanhados geralmente de pequenas convulsões. Em seguida ocorre a parada respiratória com
perda de consciência.
Examinando-se
externamente o cadáver vítima de asfixia encontramos vários elementos, que
variam de acordo com as causas da asfixia:
a)
cianose da face:
mais freqüente nos casos de estrangulamento e esganadura
b)
espuma: encontrada nos afogados
c)
projeção da língua: comum no enforcamento
d)
equimoses externas: freqüentes nos
estrangulamentos e esganaduras
e)
livores cadavéricos: se apresentam com a cor escura e aparecem precocemente.
f)
Equimoses viscerais: são vulgarmente
denominadas como petéquias de TARDIEU (que foi o estudioso quem as descreveu) .
São manchas de cor vermelha, de forma arredondada, de tamanho que pode variar
da cabeça de um alfinete a uma lentilha. Elas surgem por causa do rompimento
dos capilares, e se encontram geralmente nas pleuras.
Tipos de asfixia:
SUFOCAÇÃO
A sufocação é
a asfixia em que o obstáculo ‘a entrada de ar no aparelho respiratório não é
produzido pela constrição do pescoço, e sim por algum tipo de obstáculo.
Ela pode ocorrer de várias maneiras:
SUFOCAÇÃO
DIRETA
a) Oclusão direta das narinas e da
boca : neste tipo de sufocação os orifícios superiores do aparelho respiratório
são fechados. Pode ser produzida por travesseiros, cobertores ou outros
objetos. Pode ser acidental, que ocorre por exemplo com recém nascidos ,
que dormindo com as mães são sufocados por panos que se encontram no leito. Na
oclusão criminosa a cabeça da vítima é envolvida com panos até
causar-lhe a morte. Na suicida a pessoa coloca sobre a cabeça panos até que
se consuma a morte.
b) Oclusão dos orifícios da laringe
e da faringe: Também pode ser criminosa
ou acidental Na criminosa ocorre a introdução dentro da
boca de tampões de pano,papel ou outro objeto. Porém este tipo de oclusão é
mais freqüentemente acidental, especialmente entre crianças, que ao ingerir
pequenos objetos como botões, bolinhas de vidro, ou peças de brinquedo, acabam
por morrer sufocados. Entre adultos também ocorrem acidentes, principalmente
quando ingerem grande quantidade de
alimentos e engasgam. Os indivíduos alcoolizados podem ser sufocados com o
próprio vômito.
SUFOCAÇÃO
INDIRETA
Compressão torácica: é uma
modalidade de sufocação onde o indívíduo asfixia-se porque peso excessivo não
lhe permitem realizar os movimentos de inspiração e expiração. Também é chamada
de sufocação indireta. Pode ser homicida, quando o indivíduo sentam-se
sobre o tórax da vítima, até mata-la. Quando é acidental, geralmente assume caráter
coletivo, por exemplo, nas grandes aglomerações populares. Na necrópsia
encontramos, além dos sinais clássicos de asfixia, fraturas dos arcos costais e rotura dos
pulmões.
SOTERRAMENTO
Na asfixia por soterramento, o
indivíduo se encontra mergulhado em um meio pulverulento. Geralmente é
acidental, embora existam casos de infanticídio onde a mãe enterra vivo o recém
nascido.
Apesar do nome, pode ocorrer em vários meios sem ser a terra
especificamente. Por exemplo, o indivíduo pode morrer soterrado ao cair dentro
de um depósito de farinha.
O exame do cadáver mostra, além dos sinais de asfixia, vestígios
nítidos da substância em que ocorreu o soterramento, localizados principalmente
nas narinas e na boca. O exame da traquéia também mostrará vestígios desta
substância.
AFOGAMENTO
É a asfixia produzida pela penetração de líquido nas
vias respiratórias.Não é indispensável que o corpo da vítima esteja totalmente
coberto.
HOFFMAN descreveu três fases do
afogamento: a primeira é a caracterizada pela parada respiratória, a segunda se traduz por dispnéia com
inspirações profundas e expirações curtas; e a terceira, se instala a asfixia
com perda da consciência e dos reflexos.
VIBERT, estudando a submersão,
estabeleceu duas modalidades: a submersão-asfixia, e a submersão-inibição.
Na submersão-inibição, o indivíduo,
ao cair na água, não apresenta reação, e morre quase que instantaneamente. O
mecanismo deste tipo de morte ainda não está totalmente esclarecido, mas
acredita-se que seja por causa da inibição dos centros respiratórios cerebrais.
Este tipo de morte (por
submersão-inibição) nos dá o que chamamos de AFOGADO BRANCO, no qual não há
inspiração de água. Ocorre quando uma pessoa cai na água e não retorna à
superfície, e mesmo quando é resgatada em poucos minutos, já é encontrada
morta.O tempo transcorrido da submersão é tão curto que não diar para matar por
asfixia. Com freqüência , a vítima se encontra alcoolizada, ou sob o efeito de
outro depressor do sistema nervoso central. È também mais comum em locais onde
a água se encontra muito fria. Atualmente, discute-se a existência de uma
síndrome chamada síndrome de imersão, que é uma parada cardíaca quando a pessoa
mergulha em água e temperatura 5
g raus abaixo da temperatura corporal. Não se conhece o
modo de ação desta síndrome. Nos casos de afogamento branco, no cadáver não são
encontrados os sinais clássicos encontrados no afogamento verdadeiro, que irão
ser mostrados a seguir:
Na submersão-asfixia a vítima ao
cair, vem a tona, tenta respirar, tosse,
engole água, e acaba perdendo a consciência após uma luta prolongada.
Na realidade a vítima, submersa,
tenta prender a respiração o máximo quanto pode; mas em seguida, o reflexo da
inspiração é mais forte, e ela acaba inspirando água, o que a faz perder a
consciência. Se ela não for salva, a
partir desse momento, dentro de 4 ou 5 minutos ela estará morta.
O cadáver dos afogados apresenta
várias características. A seguir, vamos apresentar as características EXTERNAS:
a) resfriamento precoce
b) rigidez cadavérica precoce
c) pele anserina
d) livores cadavéricos róseos
e) cogumelo de espuma no nariz e
boca (esta espuma é resultado da mistura do muco com a água)
Nos
cadáveres vítimas de afogamento que são encontrado após alguns dias,
encontraremos outros sinas externos:
a) enfisema putrefativo, que é
resultado da putrefação cadavérica, que faz com que o cadáver atinja um tamanho
gigantesco, e acabe por vir a tona;
b) destruição das partes moles do
corpo como orelhas, lábios globos oculares,pálpebras, causados por animais
marinhos
c) compressão da língua entre os
dentes, ou sua protusão
O
exame interno do cadáver dos afogados também nos dará outros elementos:
a)líquido
dentro das cavidades pleurais
b)presença
de corpos estranhos no aparelho respiratório.Algumas vezes é capaz de
encontrarmos pequenas folhas na traquéia.
Alguns autores mostram que é possível até mesmo localizar algas
microscópicas no líquido encontrado nos pulmões
c)espuma
na traquéia
d) sangue diluído: o sangue tem uma
coloração vermelho clara, é fluido e escorre como água
e) presença de líquido nas vias
digestivas: encontra-se com freqüência
no estômago dos afogados, e sua presença é explicada devido a ingestão de água
durante o afogamento
f)
congestão
visceral interna: principalmente do fígado, que adquire cor vermelho
escura dando aos cortes saída de grande
quantidade de sangue
O
afogamento pode ser suicida, acidental, ou homicida(mais raro)
ASFIXIA
POR GASES IRRESPIRÁVEIS
O estudo das asfixias por gases é
bastante complexo. Existem vários tipos
de gases capazes de causar diversos
sintomas no corpo humano, que podem inclusive levar a morte.
Entre estes gases, podemos citar:
a) gases lacrimogêneos: causam intenso lacrimejamento, por causa da
irritação ocular, que pode levar até a conjuntivite e cefaléia.
b) gases vesicantes: o mais
conhecido deles é o gás mostarda, que age produzindo lesões locais como úlcera
de córnea, destruição da mucosa da
traquéia, infecção brônquica, necrose dos pulmões. A pele se cobre de
ulcerações, e a morte geralmente sobrevém por broncopneumonia.
c) gases tóxicos: os principais
são o ácido cianídrico é o monóxido de carbono. O ácido cianídrico produz a morte quase que instantaneamente,
tanto é que ele é usado nas famosas câmaras de gás onde são executados os
condenados a morte. O monóxido de carbono é o gás que sai dos motores dos
automóveis; é extremamente tóxico,
porque se liga a proteína do sangue (hemoglobina) tomando o lugar do oxigênio.
No cadáver vítima deste gás encontramos livores róseos, os músculos mantém uma
coloração vermelha viva. Antigamente este gás era usado na iluminação pública e
nos encanamentos de gás,o que levava muitas pessoa a se suicidarem abrindo a
torneira do gás e fechando as portas de suas casas.
Alguns gases anestésicos, quando absorvidos em excesso, podem também
levar a morte por asfixia. Existem vários indivíduos que se asfixiam por uso do
clorofórmio embebido em um pano, levado a boca e ao nariz.
Além desses gases existe outra
modalidade de asfixia que é chamada de CONFINAMENTO. São casos em que o
indivíduo, enclausurado dentro de um recinto, esgota o oxigênio vital contido
no mesmo, vindo a falecer dentro do mesmo. Ocorre em situações como: quando
paredes desabam no interior de minas, prendendo os operários nas galerias;
quando os submarinos afundam; quando crianças se trancam dentro de malas ou
pequenos cubículos; ou quando se colocam vários indivíduos em um quarto ou cubículo
de tamanho reduzido, onde a ventilação não é suficiente.
Os cadáveres vítimas deste tipo de
asfixia apresentam as seguintes características:
-persistência da temperatura do
corpo muito tempo após a morte
-umidade do cadáver
-pele pálida
ENFORCAMENTO,
ESTRANGULAMENTO E ESGANADURA
No
enforcamento, a constrição do pescoço é exercida por um laço, cuja
extremidade se acha fixa a um ponto dado, sendo a força atuante o próprio peso
do corpo.
Durante
muito tempo acreditou-se que o enforcamento só acontecia se o corpo da vitima
ficasse completamente suspenso. Porém, existem vários casos onde o indivíduo
fica com os pés e as vezes até o joelho encostado no chão, e ainda assim
consuma-se o enforcamento.
Os
laços usados podem ser de dois tipos: laços duros e laços moles. Os laços duros
são formados por cordas, fios elétricos, arames. Os laços moles são
representados por lençóis, toalhas, gravatas.
Em
geral, o laço do enforcamento dá uma única volta em torno do pescoço. O nó pode
ser corredio ou fixo. O nó geralmente se situa na região posterior do pescoço,
nas proximidades da região mastóide.
Quanto
ao ponto de suspensão, pode ser variável, podendo ser uma porta, uma árvore,
uma trave do teto, etc.
Algumas
vezes a corda se rompe ou alguém retira o indivíduo a tempo de o salvar; nestes
casos, a pessoa apresenta uma série de sintomas como: disfagia, disfonia, e até mesmo estados convulsionais. O
indivíduo pode até mesmo vir a falecer dias após No salvamento.
No
cadáver dos enforcados encontramos uma série de características: a língua
geralmente está um pouco protusa,e os livores se encontram na parte inferior do
corpo, por causa da ação gravitacional.
As
pernas e os pés podem apresentar pequenos ferimentos, porque nas convulsões que
precedem a morte o enforcado poderá projeta-los com violência contra a parede,
ou objetos próximos.
O sulco deixado no pescoço dos
enforcados é de grande importância no diagnóstico médico-legal do enforcamento.
Tal sulco não é contínuo: interrompe-se em pontos que correspondem aos cabelos,
ou nas proximidades do nó. Tem como
regra quase absoluta uma direção oblíqua ascendente, sendo que o ponto mais
alto desta linha corresponde ao nó. Em geral o sulco do enforcamento é único.
Os
sulcos podem ser pálidos ou pergaminhados. Os pálidos tem cor azulada, e são
produzidos por objetos de baixo poder compressivo como lençóis e roupas. Os
pergaminhados tem cor castanho escuro,
semelhante a um couro, e são produzidos por objetos de poder compressivo forte
como cordas e fios. A profundidade e a largura do sulco dependem da espessura
do laço e do tempo de compressão.
O
exame do pescoço do enforcado revela:
-Linha
Argentina: encontrada nos sulcos pergaminhados, em que o tecido conjuntivo
subcutâneo se desidrata e se condensa por causa da compressão, deixando uma
estria de cor branca, que acompanha a direção do sulco. Ela se chama linha
Argentina por causa de sua cor esbranquiçada
que algumas vezes parece ser prateada (em latim, prata se escreve argentum)
-Equimoses sangúineas nos músculos (como o
esternocleidomastóide)
-Lesões
da carótida: especialmente as lesões da túnica interna das carótidas.
-Lesões
das cartilagens da laringe
-Lesões
da coluna vertebral (se o enforcametne for violento).
O
enforcamento pode ser suicida, homicida e acidental. O acidental é
raro, mas existem casos de acrobatas e outros indivíduos que se
enforcaram ao fixar fios em locais elevados
O
enforcamento homicida é mais raro ainda, entretanto existem casos como o do
falso médico de Rouen, que era um indivíduo que, dizendo-se médico, ia até a
casa dos pacientes com uma corda e um prego e os convencia de que deviam
submeter-se a um tratamento especial, no decurso do qual eram enforcados.
O
diagnóstico diferencial entre um enforcamento suicida e homicida é necessário,
pois um indivíduo pode ser morto por outro processo e ser, em seguida, suspenso
por uma corda a fim de simular o homicídio.
As
equimoses, lesões viscerais e as hemorragias nos tecidos do pescoço são reações
vitais, indicativas de que o indivíduo se encontrava vivo ao ser enforcado.
No
estrangulamento, a asfixia ocorre
pela constrição do pescoço por um laço, cuja força atuante é a mão humana.
Nos
casos de estrangulamento, o sulco geralmente é horizontal e é completo, ou
seja, abrange todo o pescoço. Sua profundidade é uniforme e os bordos
apresentam cor violácea, que contrasta com a palidez do fundo.
O sulco do estrangulamento
dificilmente se apergaminha, porque a pós a morte cessa a ação constritiva.
No cadáver encontramos uma espuma rósea na laringe e traquéia, congestão pulmonar.
No exame interno do pescoço, encontraremos lesões hemorrágicas dos tecidos do
pescoço, e também equimoses das pálpebras e das conjuntivas. Raramente
encontramos lesões nas carótidas ou nas cartilagens da laringe.
O
estrangulamento geralmente é homicida. É bastante comum nos casos de
infanticídio.
A
esganadura é a modalidade de
asfixia em que a constrição do pescoço é executada diretamente pela mão. O cadáver vítima de esganadura apresenta as
seguintes características:
-petéquias
disseminadas por quase toda a face
-congestão
da conjuntiva e da face
- equimoses e escoriações
cervicais de forma semilunar, causadas pelas unhas .
- espuma rósea na traquéia
A
esganadura suicida não é admitida como possível, portanto ela sempre é fruto de
um crime.
TANATOLOGIA
Tanatologia é
a parte da Medicina Legal que estuda a morte e os problemas médico-legais dela
decorrentes. Com a morte cessa a personalidade civil do indivíduo, o que dá
lugar a uma série de conseqüências
jurídicas de alta relevância.
A definição
mais simples de morte é a cessação total
e permanente das funções vitais. Porém, como avanço da tecnologia
médica,surgiram novos questionamentos, principalmente em relação ao exato
momento de se considerar alguém morto. (Isso é importante no caso da doação de
órgãos para transplante, por exemplo). Desta forma, define-se atualmente morte
clínica como o estado irreversível de defunção encefálica comprovada por exames específicos e não mais
pela cessação da atividade cardiorrespiratória (uma vez que a pessoa com morte
encefálica pode manter a função cardiorrespiratória preservada).
Mas o que seria a morte encefálica?
A morte
encefálica é a situação em que as estruturas vitais do encéfalo encontram-se
lesadas irreversivelmente. Caracterizando-se por:
-ausência
total de resposta cerebral, com perda absoluta de consciência
-abolição dos
reflexos cefálicos, com hipotonia muscular e pupilas fixas indiferentes aos
estímulos dolorosos e luminosidade.
-ausência de
respiração espontânea
-eletroencefalograma
EEG plano, isoelétrico em todas as derivações
-ausência de
circulação cerebral em exame angiográfico
O receio de
ser enterrado vivo é um medo que está presente em várias pessoas. Os numerosos
casos quase lendários contados pelos populares não passam de imaginação
exaltada ou má observação.
Existem
raríssimos casos de morte aparente, que ocorriam geralmente na antiguidade e em
meio a grandes epidemias, quando os médicos não faziam um exame mais apurado
para diagnosticar a morte. Nos IMLs e Anatomias de todo o mundo não se tem
notícia de se ter iniciado um exame necroscópico em uma pessoa ainda viva.
O diagnóstico
da realidade da morte é feito através de vários meios, e os fenômenos
decorrentes da morte são divididos em várias etapas:
Fenômenos abióticos imediatos:
:
-perda da
consciência
-perda da
sensibilidade
-abolição da
motilidade e do tônus muscular
-cessação da
respiração
-cessação da
circulação (batimentos cardíacos)
-cessação da
atividade cerebral
Existem alguns
testes antigos,dos quais descreveremos alguns:
-Introduzir
uma agulha na região precordial. Se o coração ainda bater, a agulha se movimentará
-Fazer a
ligadura de um dedo, se houver vida, o mesmo adquirirá cor violácea
-Instilar duas
gotas de éter nos olhos, se houver vida, haverá hiperemia
-Aproximar uma
vela da pele do indivíduo; se houver vida, haverá formação de uma vesícula
sanguinolenta
-Fazer
umainjeção de fluoresceína endovenosa. Se houver vida, em 30 minutos a pele
adquire cor amarela e os olhos cor verde
-Desidratação:
a evaporação da água nos tecidos orgânicos leva a diminuição de peso, ao
ressecamento da pele, os globos oculares sofrem opacificação das córneas,
formando manchas negras na esclera.
-Resfriamento
do corpo: Não havendo mais funcionamento dos centros cerebrais
termorreguladores, o cadáver perde calor, em média de 1 a 1,5 graus por hora, até
atingir a temperatura ambiente.
-Rigidez
cadavérica: causada por fenômenos bioquímicos que ocorrem dentro das células
musculares, começa entre 1 a
2 horas após a morte, chegando ao máximo cerca de 8 horas após. Desaparece com
o início da putrefação, geralmente depois de 24 horas. Inicia-se nos músculos
da mandíbula, e progressivamente dos membros superiores até os inferiores. Se desfaz com o início da putrefação,
inversamente como se instalou.
-Livores
hipostáticos: São produzidos pela parada da circulação sanguínea, Surgem nas
primeiras horas após a morte, formando um rendilhado puntiforme. Se tornam
fixos por volta de 8 a
12 horas após a morte. De acordo com os livores, podemos descobrir a posição em
que o cadaver estava na hora da morte. (por exemplo, se ele morreu em decúbito
ventral, a parte anterior ficará com livores)
Estes três
últimos fenômenos podem ser assim descritos, para melhor memorização: ALGOR (resfriamento), LIVOR (manchas de
hipóstase) e RIGOR (rigidez cadavérica)
Fenômenos transformativos destrutivos
São
aqueles que alteram a estrutura do cadáver.
Com
a queda dos sistemas encefálicos superiores, as
células permanecem ainda algumas horas em funcionamento, formando
catabólitos que vão acidificando o ambiente celular (pois não está havendo
entrada de oxigênio) de tal forma que a célula vai sendo destruída em um processo denominado autólise.
Ela representa o início bioquímico da putrefação.
Entre
20 a 24
horas após a morte, o processo bacteriano presente no intestino passa a ser
visualizável, a partir de uma mancha verde que se instala na fossa ilíaca
direita , por causa da proximidade do ceco (início do intestino grosso) com a
pele da parede abdominal. Essa fase é chamada de fase de coloração
Há
também a formação do gás sulfídrico bacteriano, que combinado coma hemoglobina
do sangue cria um composto esverdeado denominado sulfometahemoglobina. Ocorre
também a formação de dois derivados da decomposição das proteínas, chamadas de
putrefacina e cadaverina, ambas de odor muito desagradável.
Continuando
com o desenvolvimento bacteriano, os gases decorrentes da putrefação começam
a aumentar tremendamente as pressões
intracavitárias (caixa craniana, tórax e abdome), fazendo com que o sangue já
parcialmente putrefeito procure áreas de menos pressão; desta forma se instala
um mapeado dérmico conhecido como circulação póst mortem ou circulação póstuma
de brouardel. Em decorrência destas mesmas pressões , acontece a protusão da
língua e das órbitas, o agigantamento do cadáver,e nos homens, aumento da bolsa
escrotal
Encontramos
ainda nessa fase a formação de bolhas ou flíctenas putrefativas, cheias de
líquido, com descolamento da pele do cadáver. Ele então adquire uma posição
chamada de “posição de boxeador”. A esse
conjunto de características damos o nome de
fase gasosa da putrefação. Ela
geralmente dura vários dias até semanas, dependendo de fatores como condições climáticas, local onde o corpo se
encontra, etc
Um número
incontável de bactérias agora auxiliadas por outros animais necrofágicos,
começa a destruir a arquitetura orgânica. Principalmente as larvas de moscas e
outros insetos.
Com o passar
dos dias, as partes moles vão se destruindo, e as partes ósseas mais
proeminentes vão aparecendo; surge um líquido pútrido de cor escura que se
espalha por todo o cadáver. Os cabelos caem, os restos viscerais se transformam
em uma massa negra. Esta fase se chama coliquativa. Essa fase pode durar de semanas a meses.
Passando esta
fase, a pele e os músculos já estão destruídos por completo, deixando os ossos
expostos; é a esqueletização. Esse processo demora vários anos para se
concluir;
Os cabelos, os
ossos e os dentes resistem muito tempo aos fenômenos destrutivos. O resto,
porém, desaparece por completo.
Existem alguns
fenômenos post mortem que alteram
a ordem de putrefação mostrada acima. são os
FENOMENOS CONSERVADORES.
Fenômenos
transformativos conservadores
São aqueles que ocorrem atrasando o processo
de putrefação, ou até mesmo impedindo o seu aparecimento.
O primeiro é a saponificação
ou adipocera, que ocorre em cadáveres de indivíduos obesos, enterrados em terrenos
com grande umidade, frios e pouco ventilados. Os ácidos graxos se transformam
em sabão,impedindo a proliferação das bactérias.
O outro é a
mumificação, que ocorre com cadáveres de indivíduos magros, colocados em
ambiente seco, quente e bem ventilado. Sua dessecação é tão intensa que as
bactérias não sobrevivem e o corpo se mumificará.
O ultimo deles
é a maceração, que ocorre nos abortos retidos, onde o feto é mantido morto
dentro do útero por várias semanas. Ele não entra em putrefação porque o líquido
amniótico é estéril; porém ele se deforma, e a cabeça se tumefaz.
DIREITOS SOBRE O CADÁVER
O CORPO HUMANO
é de natureza extrapatrimonial, é res
extra commercium, inacessível
(teoricamente) aos negócios habituais. Ele não é um bem econômico. O direito
sobre o corpo não é um direito de propriedade, e o cadáver não pode ser
utilizado para fins lucrativos.
O cadáver não
faz parte da sucessão. A família tem direitos e deveres. Tem como dever
primordial respeitar e executar a vontade do falecido, se essa vontade é
lícita.
DESTINO DO CADÁVER
I.
Inumação
A inumação
realiza-se em Sepultura de 1, 70 m de profundidade por 80 centímetros de
largura, espaçadas umas das outras pelo menos 60 centímetros , em
todos os sentidos. Só pode ser realizado 24 horas após a morte. É de hábito
abrir-se o caixão para certificar-se da presença do cadáver.
II.
Cremação
Consiste em reduzir O Corpo , em fornos
especiais, a cinzas, que poderão ser guardadas em pequenos recipientes. Do
ponto de vista médico legal, existem argumentos contrários, porque a cremação
impede qualquer verificação post-mortem que poderia ser realizada, como uma
exumação. Por isso ela nunca deve ser permitida sem um exame minucioso do
cadáver.
CRONOTANATOGNOSE
É
a parte da Medicina Legal destinada a estudar a data da morte. Baseia-se num
conjunto de elementos que nos permitem dizer há quanto tempo ocorreu a morte.
Esses elementos são:
a) resfriamento do cadáver: ocorre em um tempo que é calculado em cerca
de 24 horas
b) livores cadavéricos: levam de 4 a 5 horas para se instalarem,
sendo deslocáveis nas 8 horas que se seguem. Após esse período se tornam fixos
c) rigidez cadavérica: inicia-se na primeira hora, atinge
o máximo em 8 a
12 horas e se desfaz completamente em 24 horas
d) mancha verde abdominal: surge no fim de 24 horas, ou um
pouco antes se o clima estiver quente
e) crescimento da barba: só ocorre nas primeiras horas
após a morte. A barba cresce cerca de 21 milésimos de milímetro por hora. Basta
dividir-se o comprimento que os pelos da barba do cadáver apresentam por 21
milésimos de milímetro que saberemos o numero de horas decorridas após a ultima
feitura da barba.
f) Fauna cadavérica: existe uma parte da Medicina Legal
chamada Entomologia Forense, que estuda os insetos que formam a fauna
necrofágica, ou seja, que se alimentam dos cadáveres.Através dos tipos de
insetos encontrados no cadáver, é possível determinar o tempo aproximado de
morte, porque existe uma seqüência de tipos de insetos e larvas que se
alimentam do cadáver de acordo com sua fase de putrefação Nestas mesmas larvas ainda podem ser
encontrados resíduos de substâncias como venenos e drogas. A Entomologia
Forense infelizmente ainda não é muito estudada no Brasil, sendo mais
desenvolvida na Europa e EUA.
Créditos pelo conteúdo, Professor Dr Alexandre Soares (Prof Gardenal) - IML (foto)
Muito obrigado pela contribuição professor!!
Atenciosamente, Rafael Brandão - Biomedicina